terça-feira, julho 25, 2006

Galiza é umha naçom!

Vista de fora e aos olhos de muitos portugueses, Espanha surge como um bloco mais ou menos uniforme com uma mesma língua e cultura de Barcelona à Corunha, como se touradas, sevilhanas e o idioma castelhano falassem por todo o país. Reconhece-se, quando muito e por motivos óbvios, uma identidade diferente ao País Basco, mas de resto o país vizinho é todo ele quase a mesma coisa. No entanto, a recente aprovação em referendo de um novo Estatuto da Catalunha que a define como nação e estabelece o dever de conhecer a língua catalã foi um sinal de que não, Espanha não é toda igual. Muito pelo contrário: o Estado Espanhol é feito de diferentes nacionalidades nativas com uma língua e história próprias, dotadas de símbolos e tradições distintas. O País Basco e a Catalunha são dois claros exemplos, sendo que os catalães foram inclusive independentes até ao século XV e tentarem recuperar a sua independência por alturas de 1640, tal como os portugueses, com a diferença de que nós fomos bem sucedidos e eles não. Por outras palavras, Espanha tem no seu seio outros pequenos países como Portugal, com uma identidade nacional distinta, mas sem uma estrutura estatal própria. E a nenhum deles esta comparação se aplica melhor do que à Galiza, de entre as comunidades autónomas do Estado espanhol aquela que está mais próxima de nós, histórica e linguisticamente falando.

Os laços comuns entre portugueses e galegos são antigos, mas são frequentemente ignorados. Esquecemo-nos, por exemplo, que o Condado Portucalense era um feudo inicialmente integrado na Galiza, a qual chegou a ser independente de Leão por dois breves períodos de tempo e em ambos os casos a terra portucalense pertencia à coroa galega. A ascensão do condado a reino de Portugal fez-se de um golpe de galegos do sul – os portugueses – contra galegos do norte, de tal modo que depois de 1143 e até à segunda metade do século XV a língua dos dois lados do rio Minho era uma e a mesma. É e continua a ser, pois o idioma próprio da Galiza é o galego e este nada mais é do que uma forma de português, com aspectos naturalmente distintos tal como entre o de Portugal e o do Brasil. Por esse mesmo motivo foi aceite uma delegação galega nas reuniões dos Acordos Ortográficos da Língua Portuguesa em 1986 e 1990 e uma recente exposição sobre a lusofonia, organizada por diversas entidades nacionais, inclui uma secção sobre a Galiza. Mas a unidade linguística entre os dois lados do Minho não se faz sem problemas e entraves de ambas as partes. Proibido e desprovido de uma tradição escrita durante séculos, o galego sofreu uma castelhanização maciça e luta-se, ainda hoje, pela sua recuperação e aproximação plena ao português, incluindo a grafia, já que a ortografia actualmente vigente na Galiza apenas perpétua os castelhanismos, em vez de ser um mecanismo de reintegração na lusofonia. Por outro lado, entre os portugueses há desconfiança ou simples ignorância, desconhecimento de que do outro lado do Minho também se usa a língua portuguesa, variante regional que seja, e que um galego está para um castelhano como um escocês está para um inglês: vivem ambos sob um mesmo Estado, mas têm identidades nacionais diferentes. E tal como na Escócia há um movimento crescente por uma maior autonomia e até mesmo independência, o mesmo sucede na Galiza e na Catalunha pela voz de grupos políticos e civis.

Vem isto tudo a propósito do dia 25 de Julho, Dia de Santiago, mas também Dia da Galiza, e que este ano se comemora enquanto se discute a reforma do seu estatuto que, à semelhança do que sucedeu com o catalão, espera-se que reconheça a existência de uma nação galega. Aos galegos a data dirá certamente muito mais que aos portugueses, mas não deixa de ser uma ocasião que vale a pena ser lembrada entre nós, não só porque a sobrevivência e recuperação da língua galega também depende da nossa ajuda – por ser a mesma que a nossa – mas porque a Galiza é a nação gémea da portuguesa e em vez de dizermos «nuestros hermanos», como se Espanha fosse toda a mesma coisa, devíamos antes falar de «nossos irmãos», em galego-português bem falado e plenamente integrado na lusofonia.

5 comentários:

Sano disse...

Viva a Galiza, esperemos que as 2 Galizas se tornem independentes, a Galiza norte (actual Galiza) e a Galiza Sul (actual norte de Portugal).
Isto é o correcto é o que devia acontecer.

Tu como português calculo que te oponhas a uma independencia do norte de portugal nao?

Um castelhano tambem faz o mesmo, opoe-se a independencias de galiza, catalunha e pais basco, portanto nao era de estranhar.

Enfim, espero que no futuro as 2 Galizas se tornem independentes e se vejam livres de Espanha e Portugal :)

Heliocoptero disse...

Historicamente, Portugal é, na origem, a Galiza sul que se expandiu até ao Algarve. No norte português não ficou nem uma língua própria, nem uma estrutura política autónoma ou sequer nominal. Pelo contrário: expandiu-se tudo para sul, idioma e administração, tanto que o norte é o berço de Portugal.

Quando muito seria o sul português, o conquistado, a pedir independência do norte, o conquistador, ou não fosse o Algarve a única região portuguesa que alguma vez deteve um estatuto próprio, ainda que apenas em nome: já lá se diziam os monarcas portugueses reis de Portugal e do Algarve :)

Meraio disse...

Como galego não concordo com a opinião do Sano, mas este comentário não é para falar nisso mas para dizer mais uma vez que a essa bandeira lhe falta a estrela! "Galiza é umha naçom", bem pois a bandeira dessa Galiza nação, a bandeira de todas e todos os que lutamos pela autodeterminação do nosso povo, tem uma estrela vermelha no meio. Essa será em todo o caso a bandeira da Comunidade Autónoma Galega, a bandeira de "Galicia".


Hoje na manifestação de Compostela, nas imagens, viste alguma bandeira sem estrela?

Um abraço,

Ângelo

Heliocoptero disse...

A bandeira da faixa azul, simples e sem qualquer tipo de brasão, é o símbolo mais imparcial da Galiza moderna. Se tivesse o actual escudo oficial, aí sim seria a da "Galicia", mas a que usei é a base a que todos deram uso - o Castelão, os partidos de esquerda, as instituições oficiais - na criação das suas próprias versões ;)

Abraço!

Carla Torres disse...

A Galiza pode ter uma visão mais ampla...

Portugaliza