sexta-feira, setembro 08, 2006

Para eles é precioso, para nós é inútil

Via Post Scriptum e por indicação do Boss, soube hoje que na Finlândia o latim é uma língua popular, ao ponto de a presidência finlandesa da União Europeia ter decidido publicar os seus comunicados no idioma de Cicero e a rádio pública da Finlândia manter uma emissora chamada Nuntii Latini, com transmissões integralmente em latim e um forúm de debate para latinistas. Como se isso não bastasse, um professor universitário finlandês vai ao ponto de editar discos em sumério e latim, incluindo versões de temas como o Love Me Tender de Elvis Presley que passa, assim, a intitular-se Tenere me ama.

E porque é que eu estou a referir estes factos? Porque para além de curiosos, eles revelam por contraste uma triste realidade portuguesa. Para quem não sabe, o finlandês não é um idioma românico. Nem sequer é indo-europeu, mas pertence ao grupo das línguas fino-úgricas juntamente com o estono e o húngaro. Linguisticamente falando, portanto, a Finlândia é um mundo à parte dos seus vizinhos escandinavos e russo e não tem na origem a mais pequena relação que seja com a fala de Roma. Já o português, por outro lado, é uma língua românica, isto é, deriva directamente do latim, e não deixa de ser tristemente irónico que na Finlândia se aposte tanto nessa língua dita morta, enquanto nós, que deviamos sabê-la melhor que muitos outros, temo-la por inútil e retiramo-la dos currículos escolares a todo o vapor como se de um empecilho se tratasse.

Contra isso, contra a perda de qualidade do ensino, contra o menosprezo pela nossa maior raíz cultural e contra prioridades economicistas para as quais o saber clássico é uma área meramente elista ou lúdica em vez de um pilar essencial da formação da pessoa enquanto ser humano e cidadão, está desde há uns meses em linha uma petição a favor das línguas clássicas em Portugal. A inciativa é promovida pela Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, o Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra e o Departamento de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa e pode ser assinada aqui. Para que a língua e cultura latinas voltem a ser uma parte integrante do ensino em Portugal!

Non scholae sed vitae discimus
Não aprendemos para a escola, mas para a vida
Séneca

2 comentários:

Augusto Sanchez disse...

Caro/a Pinhas,
adorei o teu blogue! Será que me estou a cruzar com um(a) colega classicista?!

Heliocoptero disse...

Acho que quando muito seria um colega medievalista.