terça-feira, setembro 05, 2006

Línguas europeias (i) - o occitano

Dante terá escrito a respeito das línguas romanescas que "nam alii oc, alii si, alii vero dicunt oil", ou seja , que uns dizem "oc", outros "si" e outros ainda "oil", classificando assim os idiomas descendentes do latim em três grupos conforme a sua palavra para sim. O galego-português, o catalão e o castelhano, juntamente com as línguas da península itálica, fazem naturalmente parte do do "si", enquanto o norte de França do grupo do "oil". No sul do actual território francês falava-se (e ainda se fala) a lingua d'oc, o occitano, com todas as suas variantes regionais.

A localização da terra nativa do occitano deu frutos distintos. Por um lado, a proximidade com Itália e as rotas comercais que confluiam para a foz do Roão e Massilia - actual Marselha - possibilitaram desde cedo uma romanização da fala dos nativos, enquanto o facto de estar contida entre cadeias montanhosas - Alpes e Pirinéus - e terrenos durante muito tempo pantanosos, favoreceu um isolamento e consequente preservação de um léxico latino muito maior que no francês, por exemplo. Por outro lado, a centralidade geográfica da Occitania em relação a outros países de línguas romanescas abriu-lhe as portas para uma igual centralidade linguistica, o que equivale a dizer que o occitano é dos idiomas derivados do latim o que tem mais pontos em comum com as outras falas romanescas. A sua influência era, aliás, notória na Idade Média: já lá dizia o nosso El-Rei D. Dinis numa das suas cantigas "Quer' eu em maneira de proençal fazer agora um cantar d' amor" (texto integral aqui) e ainda hoje é comum referir-se ao occitano pelo nome de provençal, muito embora o termo deva ser usado apenas para a variante dialectal de Provença.

O declínio do occitano começa ainda no século XIV e de um modo semelhante ao do galego-português na Galiza cerca cem anos mais tarde: o poder crescente de uma autoridade real que usava outro idioma e a consequente perda de estatuto da língua nativa. Em 1539 foi decretado que apenas a langue d'oil (actual francês) podia ser usada na administração de toda a França e, posteriormente, duas revoluções contribuiram grandemente para a queda no número de falantes: primeiro a Francesa de 1789, que via as línguas regionais como uma ameaça à unidade nacional, seguida da Revolução Industrial, com a hegemonia da vida urbana e da grande cultura francesa e a desagregação de comunidades rurais. O século XIX assiste ainda um renascimento que culmina com um Prémio Nobel da Literatura atribuido em 1904 ao escritor occitano Frederic Mistral, mas a Primeira Guerra Mundial destrói parte dos frutos do seu trabalho.

A rápida perda de falantes continua a ser uma realidade, numa França de uma egalité ao ponto da uniformidade linguistico-cultural. Não existe nenhum censo detalhado a respeito da questão - tal é a importância que o assunto tem para as autoridades francesas - mas o mais recente (1999) aponta para cerca de 610.000 falantes nativos e coisa de um milhão de pessoas com alguma forma de contacto com o occitano. O maior esforço de recuperação da língua vem de associações culturais e grupos de activistas que acabaram por criar uma rede de escolas para ensinar occitano aos mais novos. Já do outro lado dos Pirinéus, uma variante da mesma língua propera: o catalão. A separação entre os dois idiomas, em muito semelhante ao que sucede entre o português e o galego, deriva mais de motivos políticos do que linguísticos.

Eis alguns sítios com mais informações sobre o occitano e a Occitania, quase todos já na barra lateral do Coroas sob o título «Ligações Catalãs & Occitanas», ou não fosse o lema da União Europeia "Unidade na Diversidade":

Institut Occitan
Literatura Medieval Occitana
OccitaNet
Occitania.org
Wikipedia on Occitan
Eurolang on Occitan

Tan m'abellis vostre cortes deman,
qu'ieu no me puesc ni voill a vos cobrire


Passagem em occitano no canto XXVI d'O Purgatório de Dante.

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