terça-feira, março 20, 2007

Mar que avisa, meu amigo é

Num país onde o litoral está a saque dos interesses imobiliários, onde o negócio da construção civil é rei e senhor e o conceito de "interesses nacional" define-o como algo diferente da protecção ambiental, tragédias e desastres por colapso do equilíbrio natural das coisas é uma inevitabilidade.

Não que a Natureza não o cause também, é certo, mas quando se é irresponsável como muitos dos nossos autarcas e governantes nacionais, o mal é apenas agravado, seja porque as arribas já de si fragéis não aguentam com o peso da construção que se licenciou, porque às praias falta a areia que foi vendida para a construção ou porque os terrenos que tinham como função absorver a água do mar foram impermiabilizados pela mais recente urbanização de luxo. Depois, é claro, sai caro remediar e é geralmente feito à custa do herário público, nunca dos promotores imobiliários, das mais-valias urbanísticas de proprietários ou dos rendimentos dos responsáveis políticos que autorizaram ou pactuaram com as atrocidades ambientais. Se a arriba está em risco de queda, o Estado suporta os custos de enchê-la de betão sem nunca pôr em causa o aldeamento construído mesmo à beira da encosta; se a praia desaparece e o mar está prestes a entrar pela terra a dentro, o Estado paga a construção de paredões e esporões, mas não questiona o condomínio fechado junto à linha de costa ou a extracção de inertes que não repõe no litoral as areias retidas nas barragens e com as quais os rios alimentam as praias. Portugal é um país onde a res publica vive para servir os interesses privados, não para proteger e gerir o bem comum.

Esta madrugada, por volta das três da manhã, o mar na Caparica rompeu o paredão e invadiu o parque de campismo. Antes de se queixarem do facto e de levantarem as mãos aos céus em escândalo, talvez as pessoas se devessem perguntar porque é que o objectivo de construir justificou a extracção de areia da praia, porque é que a que sai das barragens e portos fluviais não vai toda ela parar ao litoral ou porque é que se permite a ocupação de terrenos cuja função natural é ser uma barreira para as águas do mar. É chato, eu sei, já que, afinal, é o mesmo que questionar o local onde se ergue a casinha de férias, o apartamento que comprámos, o hotel ou aldeamento onde tanto gostamos de passar o verão. Chato, mas responsável, bem mais responsável do que a complacência de sucessivos governos locais e nacionais.

1 comentário:

maria jêta disse...

Pois, como dizia o outro - o homem é um vírus! Pah, no outro dia conheci um gajo que disse com muito orgulho e alegria que depois nao ter mais loiça em casa (porque nao a queria lavar) optou por comprar tudo de plástico para poder mandar fora depois de cada refeiçao. E ainda se começou a rir dizendo "Quê? Eeeu? Preocupar-me com o ambiente? REciclar?! Muahahahah!!!"

Enfim...