sexta-feira, julho 06, 2007

Em honra de Apolo

O sexto dia de Julho, Quinctilis na denominação antiga dos meses romanos, assinalava o começo dos Ludi Apollinares ou os Jogos de Apolo desde a sua instituição como celebração permanente pelo Senado de Roma em 211 ou 208 a.c. O grande sacrifício tinha lugar a 13 de Julho, no culminar de oito dias de desporto e teatro em honra do deus grego que os romanos tomariam também como seu.

A origem do culto romano de Apolo remontará a 431 a.c., quando, reza a tradição, um rei de Roma terá enviando um emissário ao Oráculo de Delfos para pedir uma solução para a peste que na altura assolava a cidade. Um templo a Apollo Medicus foi então erguido nos campos flamínios e aí o deus recebeu culto à maneira grega até à Segunda Guerra Púnica, quando a derrota romana na batalha de Canas levou o Senado a consultar o oráculo do vidente Marcius e os Livros Sibilinos. Em 212 a.c., estes aconselharam a realização de jogos em honra de Apolo para que o deus ajudasse a expulsar os cartagineses de Itália e protegesse Roma de outros perigos, tendo cada cidadão romano contribuido para ajudar a pagar as despesas da festividades. Os jogos duraram apenas um dia e tiveram lugar no Circus Maximus, repetindo-se nos anos seguintes até 208 a.c., altura em que com uma nova peste a assolar Roma os Ludi Apollinares foram instituidos pelo Senado de modo permanente e cresceram até durarem oito dias inteiros. Séculos mais tarde, o imperador Augusto faria de Apolo uma das grandes divindades de Roma ao aumentar o templo nos campos falmínios, dedicar ao deus parte dos despojos da batalha de Accio e construindo um novo templo na colina do Palatino.

Praticantes modernos do politeísmo romano preservam o culto de Apolo, adorando-o, como é tradição, segundo o rito grego (consultar ligações finais). Este blogue presta com esta entrada a sua homenagem ao deus artista e luminoso. Salvé!

Guia de Sacrifícios (Nova Roma)
Templo de Apolo (Grego)

quinta-feira, junho 28, 2007

Fumar na mesma como a lesma

Inicialmente, era interdito fumar em todos os estabelecimentos de restauração com menos de 100 m2. Na versão final, os proprietários poderão escolher se os espaços são livres de fumo ou para fumadores

As frases citadas são um excerto desta notícia do Diário de Notícias. O PS, fazendo honra aos brandos costumes da política portuguesa (frouxidão, portanto), acabou por recuar na nova lei do tabaco e parece que agora os donos dos estabelecimentos de restauração com menos de 100 m2 vão poder escolher entre proibir ou não proibir o consumo de tabaco. Chamam-lhe uma lei equilibrada e ponderada, eu chamo-lhe uma receita para ficar quase tudo na mesma como a lesma.

A partir do momento em que a proibição deixa de ser igual para todos e passa a depender da vontade do proprietário, o cenário mais óbvio é que nada vai mudar, porque poucos ou nenhuns correrão o risco de proibir tabaco no seu espaço com medo de perder clientes para qualquer outro estabelecimento onde se possa fumar à vontade. A certeza da lei dá lugar à dúvida sobre a concorrência, as preocupações com a saúde alheia perdem importância face a leis de mercado. De responsável e ponderado isto não tem nada, é apenas mais uma amostra daquele modo muito peculiar de fazer política em Portugal: mudar para que fique tudo na mesma. E ainda por cima com o contributo de partidos de esquerda! Nunca se sabe mesmo quem serão os próximos a dar o seu aval a formas questionáveis de livre concorrência...

Pela minha parte, os meus amigos ficam já avisados que terão que me chatear mesmo muito para me convencerem a entrar em locais fechados onde seja permitido fumar. É que se o mecanismo de mudança de hábitos e protecção da saúde não é a legislação responsável, mas sim o peso do dinheiro, então podem ter a certeza que farei sobre os proprietários o mesmo tipo de pressão que os fumadores.

segunda-feira, junho 25, 2007

Orgulho, sem dúvida!

Sempre que há uma Marcha do Orgulho LGBT, há sempre quem venha criticá-la. É assim todos os anos e há-de continuar a ser por muito tempo. Acusam a iniciativa de ser exibicionista, de em nada contribuir para a igualdade de direitos, de ser uma forma de gueto auto-imposto e de a orientação sexual não ser algo de que se possa ter orgulho. Este último argumento é até rematado com a costumeira ideia de que não há um dia do orgulho heterossexual ou do ridículo que é celebrar o "orgulho branco". Um exemplo dessa linha de pensamento pode ser lido aqui. O que falta, no entanto, a quem critica ou manda abaixo, seja por homofobia ou por caso de armário interiorizado, é a percepção do que é ser homossexual e as discriminações a que se está sujeito por isso.

Vamos começar pelo básico. O que é a homossexualidade? É a atracção e comportamento sexual entre pessoas do mesmo sexo. Desenvolve naturalmente o mesmo tipo de manifestações que a heterossexualidade: expressão de sentimentos e afectos, relacionamento amoroso entre parceiros e, eventualmente, vida conjugal. É um homossexual identificável na via pública? A menos que exteriorize a sua orientação sexual por vontade própria, não, não é. Um homossexual não tem uma fisionomia distinta, nem os lugares-comuns de serem efeminados, no caso dos homens, ou masculizadas, no caso das mulheres, são uma necessidade natural ou um impulso genético. Isto quer dizer que todos os dias as pessoas são capazes de se cruzar, conversar ou sentar-se ao lado de homossexuais sem que disso tenham consciência. Na maior parte dos casos nem sequer assumem ser essa a orientação sexual da pessoa ao seu lado, uma vez que, numa sociedade que considera a heterossexualidade a norma, qualquer pessoa é heterossexual até prova em contrário. É assim sem exagero. A menos que uma pessoa o exteriorize - por maneirismos, tipo de roupa ou por manifestação pública de afectos - ninguém assume que A ou B é homossexual. O mesmo não sucede com outros grupos que são tradicionalmente vitimas de discriminação: racista, no caso dos de fisionimia distinta; misógena, no caso dos de sexo diferente. Toda e qualquer pessoa de raça ou sexo diferente tem características distintivas naturais imediatamente perceptíveis.

Os homossexuais não: podem ser negros, brancos ou orientais, podem ser homens ou mulheres, podem professar qualquer uma das religiões existentes ou nenhuma, podem ter problemas de mobilidade ou não, podem ser de qualquer filiação política, desportiva ou nenhuma, podem ser de qualquer nacionalidade, estrato social, grau de instrução ou profissão. São, por outras palavras, uma minoria imperceptível até prova em contrário. Pior que isso, são uma minoria cujo elemento identitário comum está directamente relacionado com tabus sexuais, o que apenas acresce ao silêncio a que a homossexualidade é muitas vezes sujeita. Daí a necessidade de os homossexuais se exporem, de se manifestarem, de virem para rua dizer o que são. Porque os tabus quebram-se expondo o que eles procuram silenciar, porque minorias cuja existência não é proclamada e constatada não são objecto de direitos. Os heterossexuais não andam a dizer qual a sua orientação sexual, porque ela já é socialmente assumida. Negros e mulheres não andam a dizer que são negros ou mulheres porque o seu corpo já o faz por si. Os homossexuais não e por isso eles e elas têm que manifestar a sua sexualidade por outros meios, incluindo a polémica marcha, sob pena de não terem igualdade plena na lei e na vida quotidiana.

Porquê Orgulho LGBT? Porque todos os dias há homossexuais, bissexuais e transsexuais a quem lhes é dito que eles deviam ter vergonha. Vergonha de serem como são, de andarem de mão dada com o namorado ou namorado, de darem um beijo na rua, de exteriorizarem sentimentos em público, de quererem partilhar uma vida com outra pessoa do mesmo sexo, por terem tomado a decisão de mudar de sexo... a lista é, infelizmente, enorme. Depois há que lhe acrescentar ainda as ofensas verbais ou agressões físicas de que são alvo, o desdém com que são tratados pelo poder político, pela justiça e pelas força policiais, as dificuldades por que passam no emprego... é preciso continuar?

Quando lésbicas, gays, bis e transsexuais passam por todas estas coisas, eles têm mais que motivos para virem para a rua gritar que têm orgulho em ser como são. É uma resposta à vergonha e medo que outros querem que eles sintam. Claro que os heterossexuais não precisam de se dizer orgulhosos da sua sexualidade, eles já podem beijar-se na rua, restaurantes e bares, não se arriscam a sofrer represálias dos pais se disserem que gostam do sexo oposto, não são ignorados ou gozados pela polícia e tribunais por serem heterossexuais, podem casar-se se assim o quiserem, ninguém os olha de lado por terem ou quererem ter uma vida conjugal. Os homossexuais não. E por isso mesmo saem à rua. Se não forem eles mesmos a dizerem que existem, ninguém o fará por eles. O seu próprio corpo não o faz por eles. E se eles não existirem aos olhos da sociedade e do poder político, não têm direitos.

O teu silêncio é a força da discriminação, gritou-se sábado na marcha. E com toda a razão!

domingo, junho 24, 2007

Homem ou mulher, amo quem quiser!

Às vezes penso que o Diário de Notícias sofre de alguma forma de esquizófrenia jornalística. Às vezes até olho com desconfiança para qualquer notícia mais agradável - ou redigida de um modo menos conservador - naquela de que a coisa só pode trazer água no bico. Até porque já o fez no passado e por vezes o dito jornal mais parece uma segunda versão do Correio da Manhã. Hoje, no entanto, não resisto a citar a reportagem sobre a 8ª Marcha do Orgulho LGBT. Talvez seja a minha satisfação por ter finalmente sido uma manifestação mais festiva, como já acontece em tantos outros países, ou talvez sejam os detalhes da noiva e da senhora Filomena, cozinheira de um restaurante algures no percurso que a marcha tomou. Tenho gosto em ver e ler sobre estas pequenas manifestações de uma sociedade em mudança, onde, ao contrário do que sucede em países do leste europeu, não ficou o registo de violência homofóbica, mas sim o de apoio espontâneo de quem vê passar. O artigo original pode ser lido aqui:

Eram quase seis da tarde quando, depois de dizerem o sim, Sofia e Ricardo saíram da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, em Lisboa, e foram surpreendidos por uma manifestação de cor-de-rosa, amarelo e laranja. A noiva, de branco vestida, estendeu os dedos num "v" de vitória, mostrando que simpatizava com quem pedia "sem atraso, sem demora, casamento civil agora", e puxou o marido para um beijo simbólico, rodeado de gays, lésbicas e transexuais que gritavam, entusiasmados, "nem menos, nem mais, direitos iguais".

O encontro em pleno Chiado não estava na agenda da 8.ª Marcha do Orgulho LGBT, mas não podia ter sido mais aplaudido: é que o casamento homossexual é uma das principais bandeiras das cinco associações organizadoras do evento: Ilga, Clube Safo, Não Te Prives, Panteras Rosas e UMAR - União Mulheres Alternativa e Resposta. "Nós também somos famílias", lia-se na faixa que abria a manifestação. Por isso, o direito ao casamento e à parentalidade (a adopção e ainda os direitos dos companheiros de pais e mães homossexuais) são talvez as reivindicações mais partilhadas pela comunidade, a par, é claro, do fim da discriminação de facto - aquela que "não está na lei mas na cabeça das pessoas", como explica Paulo Corte Real, da Ilga. Nas escolas, nos tribunais, nos hospitais, no contacto com a polícia.

Pela primeira vez, a marcha não desceu a avenida da Liberdade. Perdeu-se em organização mas ganhou-se em ambiente festivo e em contacto com a comunidade. "Na avenida é preciso saber e querer ir, aqui não, já é um espaço gay friendly", explica Paulo Corte-Real. "E há uma outra ligação à cidade." A música de George Michael não foi suficiente para interromper os habituais jogos de sueca no Príncipe Real. Mas Gloria Gaynor fez correr Filomena, a cozinheira do restaurante Sinal Vermelho, até à rua São Pedro de Alcântara. Veio ainda de avental branco e touca na cabeça para ver a agitação e dizer que acha "muito bem". No Chiado, uma mãe explicava à atónita filha de cinco anos que "às vezes há homens que gostam de outros homens". A marcha entrou no Rossio com Madonna cantando Like a Prayer e, depois, a festa prometia continuar, pela noite fora, no arraial da Praça do Comércio. Há quem ache que fazem barulho a mais, mas os manifestantes preferem dizer: "o teu silêncio é a força da discriminação."

sexta-feira, junho 22, 2007

A pobreza democrática de Marques Mendes

O projecto que o PSD entregou ontem na Assembleia da República para a reforma da lei eleitoral é um exemplo acabado de tentativa de bipolarização parlamentar, de aumento de complexidade do sistema e de empobrecimento das condições de debate naquele que devia ser o orgão máximo de confronto democrático. A proposta (cujo texto se encontra disponível aqui) é, por outras palavras, uma receita para uma democracia mais pobre e para um afastamento ainda maior entre cidadãos e a classe política. E essencialmente por duas razões.

Em primeiro lugar, porque prevê uma redução do número de deputados dos actuais 230 para 181. Desce o número de representantes no parlamento, aumento a quantidade de votos necessários para a eleição de cada um deles. O que quer dizer que os pequenos partidos arriscam-se a ficar reduzidos a uma insignificância parlamentar ou mesmo à completa ausência na Assembleia da República. Ficamos reduzidos a uma dança exclusiva entre PS e PSD, com parcas ou nenhumas hipóteses de renovação da cena política portuguesa pelos entraves colocados ao crescimento de novas forças políticas. E como se os actuais não fossem já um problema.

Diz o PSD que a redução do número de deputados tem por objectivo uma "maior operacionalidade e eficácia do trabalho parlamentar", ficando-se com a impressão que os parlamentos sueco, finlandês e dinamarquês - para dar apenas três exemplos nórdicos - devem ser um exemplo de caos e desgovernação absoluta. Senão vejamos: a Suécia tem cerca de nove milhões de habitantes e um parlamento com 349 deputados; a Finlândia tem uma população de sensivelmente cinco milhões e duzentos mil habitantes e um parlamento com 200 deputados; a Dinamarca tem cerca de cinco milhões e meio de habitantes e um parlamento com 179 deputados, quase tantos quantos aqueles que o PSD quer que passem a representar dez milhões de portugueses e ainda os emigrantes. E atenção que no sistema dinamarquês a Gronelândia e as Ilhas Faroe elegem apenas dois representantes cada. Portanto, das duas uma: ou o PSD vê as democracias nórdicas como um exemplo a não seguir por serem mais plurais que a portuguesa, ou os nossos sociais-democratas são do mais provinciano que se pode conceber por fazerem de quantidade um equivalente necessário de qualidade. E com pessoas com uma mentalidade dessas, nem com dez deputados apenas a Assembleia da República ia ser um exemplo de excelente trabalho.

Em segundo lugar, porque a introdução dos círculos uninomiais do modo que o PSD propõe aumenta a complexidade do sistema eleitoral. Numa mesma câmara parlamentar passa haver um único representante por cada círculo continental, mas vários das regiões autónomas por estas manterem círculos plurinominais e ainda os deputados eleitos por um único círculo eleitoral nacional para determinar qual o partido que deve ter o governo do país. É tudo ao molhe e fé no que quer que seja, menos na clareza de funcionamento do sistema. Se hoje o cidadão eleitor já sente um desfazamento entre o seu voto e o resultado final na composição da Assembleia da República, maior será esse sentimento com o emaranhado que se quer criar.

Não que a ideia dos círculos uninominais seja necessariamente má. Sobre o tema, aliás, veja-se este artigo de 2005 do António Barreto. O sistema que o PSD propõe, no entanto, não só pouco ou nada resolve na questão da representatividade, como lhe acrescenta uma nova camada de complexidade. Até porque perpetua a confusão entre representantes únicos de círculos eleitorais regionais com representantes partidários, sujeitos à lógica da disciplina e orientações políticas de uma força política. Se se quer mesmo que deputados de círculos uninominais falem efectivamente pelas populações que os elegeram, pois então separem-nos da representatividade partidária. Reinstitua-se um Senado, se preciso for, para nele terem lugar os representantes de distritos e regiões, eleitos individualmente e sem sequer apoios verbais de partidos políticos. A actual câmara legislativa ficaria entregue aos deputados de um único círculo nacional - regiões autónomas incluidas - e de preferência num número nunca inferior ao actual.

Quando nos boletins de voto para a Assembleia da República os eleitores passarem a ter nomes e não apenas siglas e símbolos partidários, quando começarem a identificar os seus representantes regionais ou distritais também pelos nomes e não pelo partido pelo qual foram eleitos e ao qual estão sujeitos, aí sim teremos dado um passo importante em direcção a uma aproximação entre eleitores e eleitos. Manter a lógica partidária tal como está, com a agravante de torná-la mais complexa e bipolar, é tudo menos prestar um bom serviço à democracia.

quinta-feira, junho 21, 2007

Solstício de Verão 2007 (ii)


...assim se ergueu!


O sol nasceu radiante e glorioso para o seu expoente máximo e o dia mais longo do ano. Hoje o ciclo atinge o auge crescente do ano solar, hoje o astro-rei que é fonte de vida está na sua máxima força. Que chova, se tiver mesmo que ser, mas que se ponha cá p'ra fora toda a vitalidade que se conseguir. Até porque amanhã o ciclo já será outro, amanhã será o primeiro dia do lento decrescer dos dias até ao solstício de Inverno e a noite mais longa do ano.

Feliz solstício de Verão! :D

quarta-feira, junho 20, 2007

Solstício de Verão 2007 (i)


Assim se pôs...

A Europa de Durão

Na senda do Tratado Europeu que se quer Constituição, mas que antes de o ser já é só "mini" e foge-se com ele dos referendos como numa fuga que envolva rabos e seringas, eis que o Barroso, querendo talvez fazer jus ao seu nome de Durão, ameaçou a Polónia com a perda de apoios comunitários caso o governo de Varsóvia continue a bloquear a gloriosa marcha em frente do dito Tratado. Desconheço se seria legal ou sequer legitímo fazê-lo, mas das palavras da Comissão Europeia não se deixa de ficar com a impressão de que os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos comunitários valem menos do que o funcionamento das instituições europeias, como se elas fossem um fim em si mesmo. Ou que a Polónia tem rédea mais ou menos comprida para se comportar como bem entende, desde que não interfira no trabalho conjunto de todos os membros. Ou, ainda, que a possibilidade de perda de apoios comunitários não se aplica à violação de príncipios fundacionais da União Europeia como o respeito pelos Direitos Humanos.

De que outro modo se deve entender o facto de as perseguições políticas, religiosas, homofóbicas e misógenas do governo polaco nunca terem merecido semelhante ameaça da parte de Durão Barroso?

sábado, junho 16, 2007

Claro que primeiro convém legalizá-los

Consta que a candidatura de António Costa à Câmara Municipal de Lisboa está aberta à realização de casamentos civis no Salão Nobre dos Paços do Concelho como parte integrante das festas casamenteiras do Santo António. Diz ainda a mesma fonte que a mesma candidatura está aberta à inclusão de casais homossexuais nessa cerimónia civil, ou, pelo menos, assim consta pelas palavras de Ana Sara Brito, número três da lista do PS (obrigado, João!). Uma proposta que seria certamente empolgante, não fosse o facto de os casamentos entre homossexuais não serem ainda permitidos.

Claro que a mesma senhora faz questão de dizer que o acesso ao matrimónio civil por parte de casais do mesmo sexo é um direito que eles, os socialistas, defendem, não se sabendo, no entanto, se isso quer dizer que os seus colegas deputados vão mesmo passar da defesa teórica à prática legislativa até 2009, ou se a proposta da candidatura de António Costa foi feita com a segurança de quem sabe que nunca terá que a concretizar, porque o grupo parlamentar do PS não irá mexer no artido 1577º do Código Civil nos próximos anos.

De boas intenções já se sabia estar o inferno cheio, mas parece que o Partido Socialista também, principalmente se der votos extra entre lésbicas e gays.

domingo, junho 10, 2007

Dia da Pátria (iii)



Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os íncolas primeiros.


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, III:20-1

Dia da Pátria (ii)



O dia nacional de um país constitui a mais alta efeméride comemorativa da sua existência enquanto comunidade que partilha uma língua, História, Estado e traços culturais comuns. É recordar a fundação, refundação, transformação ou a libertação da Pátria - a terra e Estado comuns a todos os cidadãos nacionais - numa lógica semelhante à de um jantar de família ou aniversário. É, enfim, uma celebração comunitária e nós, portugueses, com quase nove séculos de nacionalidade, idioma oficial desde o século XIII e das fronteiras mais estáveis da Europa somos dos que menos dúvidas deviamos ter a respeito do que de comum temos. Só mesmo a auto comiseração, pobreza de espírito e falta de auto-estima nacionais para fazer tábua rasa das gerações passadas que recuam pelo menos até 1143. Só mesmo a falta de confiança, o chico-espertismo e um fraco espírito comunitário para tirar sentido ao dia de hoje.

A efeméride faz sentido no actual contexto da construção europeia? Sem dúvida! Porque continuamos a ser soberanos dentro da União Europeia na medida em que não dependemos de nenhum outro Estado para nossa representação nas instâncias comunitárias, ao contrário do que sucede com galegos, bascos e catalães, escoceses e galeses - para dar apenas alguns exemplos - que dependem de Espanha e do Reino Unido, respectivamente. E porque a celebração de dias comemorativos de comunidades ocorre também ao nível local e regional. Basta lembrar que os munícipios portugueses celebram feriados próprios e as suas festas da cidade, enquanto as regiões autónomas de Espanha - constituidas como nacionalidades históricas pela própria Constituição Espanhola - celebram os seus dias nacionais. Consequentemente, porque é que o facto de fazermos parte da União Europeia, que é uma comunidade de Estados e Nações, havia de tirar sentido à celebração do Dia de Portugal?

É o 10 de Junho o dia mais indicado? Talvez sim, talvez não. Sinceramente, a ideia de celebrar um dia nacional no aniversário da morte de alguém não é muito feliz, além de que a origem da efeméride na ideologia racista do Estado Novo também não ajuda e depois há datas históricas bem mais interessantes do que a da morte de Camões, mesmo tendo ele sido um dos nossos maiores poetas. Eis alguns exemplos:

6 de Abril: Dia em que D. João I foi aclamado rei pelas Cortes reunidas em Coimbra em 1385. Por um lado foi o culminar de um movimento popular que se opôs à união com Castela e escolheu o Mestre de Avis como seu líder e candidato à coroa do país, por outro foi o início da segunda dinastia, a mesma sob a qual atingimos o período mais universal, aberto e cosmopolita da nossa História. Além disso, o interregno de 1383-85 culminou na Batalha de Aljubarrota, um dos acontecimentos mais presentes no imaginário nacional - basta pensar na padeira e no Santo Condestável - e uma óptima lição sobre as possibilidades de vencer em condições desfavoráveis por via da confiança, engenho, conhecimento e audácia. Ou não tivessem 6 000 portugueses e uns quantos ingleses vencido 30 000 castelhanos e uns tantos franceses.

24 de Junho: Dia da Batalha de São Mamede, a mesma que deu a Afonso Henriques o governo do Condado Portucalense e pôs-nos definitivamente no caminho da independência nacional. Foi a primeira grande vitória portucalense.

23 de Setembro: Dia da aprovação do primeiro texto constitucional português, mais concretamente a Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822. Sim, eu sei que de lá para cá muito mudou, incluindo a queda do regime monárquico, mas não é por isso que o documento deixa de ser um marco nacional no que a direitos, liberdades e garantias diz respeito.

5 de Outubro: Dia da assinatura do Tratado de Zamora em 1143 e da implantação da República em 1910. Junta o "aniversário" oficial de Portugal com a celebração de ideais republicanos.

1 de Dezembro: Restauração da Independência, no fundo uma refundação da nacionalidade e afirmação da nossa soberania no espaço europeu.

Claro que todos estes e outros mais dias são apropriados para hastear a bandeira nacional no pátio ou jardim ou, em alternativa, pendurá-la à janela ou varanda, à semelhança do que já sucede em países com uma tradição bem assente e popular de dias da bandeira. É o caso da Suécia e a Finlândia e há quem tente implementar a mesma prática na Galiza. Qualquer dia escrevo uma entrada aqui no blogue onde liste todos os dias comemorativos da nossa História.

Dia da Pátria (i)



A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a cidente jaz, fitando,
E toldam-lhe roânticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em àngulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar 'sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O resto com que fita é Portugal.


Fernando Pessoa, "A dos Castelos" em Mensagem

terça-feira, junho 05, 2007

Orgulho LGBT - 2007

O Arraial LGBT de Lisboa é já dia 23 de Junho e... e.... e... inserir rufo, por favor... vai ser no Terreiro do Paço! :D

Custou, mas foi! A praça mais nobre da capital e uma das maiores da cidade de Lisboa vai finalmente abrir-se à festa do orgulho lésbico, gay, bissexual e transgénero. Depois de no ano passado a Praça da Figueira ter estado a rebentar pelas costuras, este ano há espaço para muitos mais! :p O programa encontra-se disponível aqui e podem ainda fazer uma contribuição para a organização conforme é explicado aqui.

Espero bem que haja uma bandeira arco-íris enooooooooooorme hasteada junto ao Tejo! :D

Give us a kiss!

A todos os pais para quem a educação sexual é um assunto melindroso que exige censura prévia, ou um tabu a ser quebrado apenas em tempo de discussão da despenalização do aborto, pede-se que tenham o cuidado - ou a civilidade - de autorizar os vossos jovens rebentos a verem a edição deste ano dos MTV Movie Awards:


Pode ser que assim os vossos filhos tenham a sorte de ganhar mentalidades menos empoeiradas e conquistem a hipótese de deixar de ver o mundo em termos de cegonhas, virgens marias que são mães por milagre e homens que são doentes por gostarem sexualmente de homens. A Humanidade agradece.

sábado, junho 02, 2007

Como seria cá?

Por entre a classificação de "Projecto de Interesse Nacional", a dependência económica do sector da construção, a "monocultura" de campos de golfe, o obscuro negócio das mais-valias urbanísticas, a lógica de "passarinhos e árvores" serem um entrave e a aposta maçiva nos transportes rodoviários, fica a pergunta de se em Portugal haveria coragem ou sequer vontade política para fazer isto. Ficamos a aguardar o episódio português da campanha de recuperação do lince ibérico, agora que Portugal assinou com Espanha um pacto de defesa da espécie.